Casamento, palavras e outros acidentes
A arte de estar certo e errado em tempos que palavras, literamente, têm poder
A cerimônia de casamento ia bem até então, afinal, havia nem 10 minutos que o padre começara a falar. Párocos podem entender muito das coisas de Deus, mas precisam melhorar o repertório aqui na terra. Não se diz para dois jovens no altar que eles estão prestes a “CONTRAIR MATRIMÔNIO”.
Mas o fato é que o padre falou e quem ficou tenso fui eu.
Isso não era para ser dito. Não ali. Não naquele momento.
Minha mente começou a divagar, afinal, se a palavra tem poder, imagine a palavra de um padre.
Deus me livre!
A gente contrai dívida, doença, inimigo. Só coisa ruim. E inimigo não tem a ver com casamento, mas com divórcio.
Afinal, ninguém diz que “contraiu fortuna na loteria”.
Trouxe minha mente de volta ao momento presente e me concentrei nos noivos em busca de sinais. Pensei comigo: será que eles perceberam o que o padre falou? Ele parecia tenso. Talvez não porque estava CONTRAINDO MATRIMÔNIO, mas porque casamentos são tensos mesmo...
Ela estava impávida. Indiferença? Não. Só maquiagem.
Os dois se entreolharam com carinho e senti um calorzinho no coração. A fala tinha passado despercebida e a cerimônia seguia bem.
Mais relaxado, voltei a atenção aos convidados. Em qualquer festa, qualquer uma, não há recinto grande o bastante para duas mulheres com o mesmo vestido. Assim como não há igreja que fique pequena para madrinhas, quantas forem, exatamente vestidas com a mesma roupa.
Não é fácil ser mulher. Elas, literalmente, passam por uma transformação e isso não é uma crítica, mas um ato de empatia!
- Apenas pare essa maquiagem quando só a minha voz for reconhecível!
- Não diga mais nada!
E lá se foram três horas de trabalho duro entre um maquiador e uma mulher para cinco horas de celebração. É uma jornada de trabalho mais do que digna! Isso é mais complicado do que a jornada 6x1.
Ouço a música subindo e volto a atenção ao padre. Chega a hora dos votos. O tão esperado momento das trocas de anéis chega com uma surpresa. Um tapete é desenrolado com solenidade para que os portadores adentrem a igreja.
Em vez do tapete vermelho, a estampa do quebra-cabeça colorido, símbolo do autismo, se impunha no sagrado lugar de fora a fora, não como um grito, mas uma oração.
De maneira diligente, carregando as alianças, estava o filho mais velho do casal: uma criança autista, colega de sala do meu filho mais novo, também autista.
Tudo fez sentido. O padre estava certo. Eles realmente tinham que contrair matrimônio.
Afinal, como ficou absolutamente evidente, o amor é contagioso.


